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NOSSA VOZ
   

Vou na fé

Laís Moreira*

“Branco, se você soubesse o valor que o preto tem,
Tomava banho de piche, branco, e ficava preto também.”

 ILÊ AYÊ

  

É como disse Evandro Nunes “Vou na fé”, e minha fé é de conhecer um mundo em que preto seja somente cor de lápis, em que uma criança negra coroar nossa senhora não seja um choque pra sociedade,  em que os negros não precisem de ação corretiva, como as cotas, porque já terão as oportunidades que lhe foram roubadas pela história, em que eu não precise me lembrar que um papa já autorizou a escravidão, em que ser preto seja igual ser branco, ou índio, ou cigano, ou gente. Quero abrir a boca e gritar que sou gente, que sou Dandara, e que não precise me matar, quero a cultura afro em discussão, quero que o camdomblessista não seja chamado de demoníaco. Quero que a matriz africana seja respeitada, que os livros didáticos não coloquem os negros somente com os punhos cerrados, mas como os alicerces desse país, que os milhões de nagôs que estão por ai nos guetos não sejam discriminados por seu cabelo de trancinha ou black power. Quero abolição! Abolição de verdade. Quero ser livre, quero ser roubado e não ser confundido com ladrão. Quero que respeitem meu cabelo de pixaim, meu nariz achatado e meu culto a Oxalá. Mas enquanto esse tempo não chega, vejo meus irmãos morrerem, sofrerem, as meninas engravidando muito cedo, os rapazes se envolvendo em caminhos errados, as mães passando pela injustiça de chorar a morte de seu filho, a multiplicação dos abortos, eu vejo os africanos lutarem pela vida dia após dia, e vejo a sangue guerreiro prevalecer e a superação acontecer. Mas até quando? Quando virá a nova princesa Isabel para nos abolir de vez? Quando o filho de negro vai ser livre pra sonhar? Até quando seu Jorge vai poder dizer que a carne mais barata do mercado é a negra? Eu também não sei! Mas enquanto isso:

“ Vou na fé,
Mas me dói o peito
Pois sou ‘dessa gente que rala,
Que sofre, que perde, que acredita e grita’
Sou negro
E vou na fé,
no peito,
Na raça,
Na ginga,
Sou dandara,
Sou Laís Moreira”.

* Laís Moreira é acadêmica do 4º período de Educação Física e vice-presidente do DCE Unimontes

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